Salve, Oju Orum!

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_MG_9320Quinta-feira passada, dia 16, tivemos o prazer de receber em Franco da rocha, o coletivo paulistano, Quizumba, que desenvolve suas pesquisas teatrais desde 2008, tendo como base a cultura afro-brasileira.

O coletivo é formado por artistas e arte-educadores, e além de trazerem uma apresentação teatral, o coletivo também ministrou uma oficina, compartilhando com os aprendizes do curso de experimentação teatral da cidade de Franco, o processo de criação da obra Oju Orum, espetáculo que traz a tona, a história de uma princesa africana que foi escravizada no Brasil.

Na oficina, foram trabalhadas as possibilidades de narração através de jogos sonoros, corporais e através de objetos, compreendendo as múltiplas possibilidades e potencialidades das escolhas para a obra artística. Ao final da oficina, que teve duração de 2h30, os jovens atores, propuseram cenicamente o final de uma história, que havia sido contada por uma das orientadoras. A história se passava em torno de 1940, no Rio de Janeiro, quando uma lei havia sido promulgada, para que as mulheres não pudessem andar na rua sem a companhia de um homem. Na história, uma lavadeira, após sair de uma festa, caminhava sozinha para ir pra casa, e foi abordada por dois policiais.

A partir das apresentações dos jovens, discutimos a respeito de quem ainda hoje são os criadores das leis brasileiras e a quem elas atendem e protegem, sobre a estrutura patriarcal que rege a sociedade, e faz com que os homens sintam-se superiores, donos, e no direito de invadir e controlar os espaços e corpos das mulheres, falamos a respeito de questões sobre privilégios, como quem continua sendo a ponta mais vulnerável na sociedade, que é a mulher negra, pobre e periférica. Durante o bate-papo grande parte das participantes também compartilharam diversas experiências de assédios sofridos, reforçando a ideia de que toda mulher, infelizmente, já viveu, ou vivenciará durante sua vida, uma situação de abuso. A oficina foi incrível, gerando um debate profundo sobre o machismo na sociedade contemporânea, e revelou um grupo de adolescentes bastante consciente de seus direitos e com abertura para discussões contundentes, e serviu como base para construção de um olhar crítico para o espetáculo que seria apresentado a noite.

Oju Orum foi apresentado no Centro Cultural Newton Gomes de Sá, para cerca de 140 pessoas, passando da cota de 120 ingressos que estavam disponíveis, tendo plateia até mesmo em pé, para assistir a obra. Os jovens das escolas Paulo Duarte, de Franco da Rocha, e P.P.A, de Francisco Morato, formaram mais de 50% do público.

A história de Oju Orum, que ao chegar no Brasil, recebe o nome de Anastácia, é entrecortada por outras três histórias de mulheres adolescentes brasileiras, que viveram em diferentes épocas: Alice, Alzira e Anita. Elas chamavam atenção por ousarem viver de maneira diferente do que era esperado pela sociedade para as mulheres de sua época, e que foram intimidadas e caladas pelo patriarcalismo.

Anastácia, além de ser torturada, como os demais escravos, foi submetida ao uso de uma mordaça por enfrentar seu capataz, falando mais do que poderia, punida por incitação à rebeldia.

Alice é uma menina do sertão, que é destinada a se casar logo quando vira moça, viveu sempre em função do pai, e sua única opção de vida era ser mãe e do lar.

Alzira, gosta muito de ir aos sambas e namora bastante, é expulsa de casa quando engravida, vai para outra cidade, casa com um homem que a princípio a aceita, mas que posteriormente passa a agredí-la, e a prender dentro de casa.

Anita, é uma moça contemporânea, moradora da periferia, funkeira e bissexual, tem sua intimidade exposta na internet, e sofre represálias por ser considerada uma “vagabunda”.

As fortes histórias têm uma encenação à altura, criativa, potente, que dialoga com os jovens, e não somente, desperta o interesse do público de qualquer idade, sendo uma excelente obra para formação de plateia, pois coloca elementos contemporâneos, e utiliza muito bem a música como narrativa e aproximação de um público que talvez não tenha tido ainda experiências teatrais. Traz importantes temas de debates e reflexões, mas como foi apontado no bate-papo, pós espetáculo, de forma simples de ser compreendida, mas reforço, que de maneira nenhuma, simplória.

Só podemos agradecer por partilharem conosco o trabalho e um dia tão especial. Veja abaixo as imagens:

O CONPOEMA Recebe… é uma realização da Associação Cultural CONPOEMA, e esta atividade fez parte da programação Por Elas, Pra Elas, em celebração ao mês das mulheres, proposto pela Secretaria de Cultura de Franco da Rocha, em parceria com diversos coletivos.

Outras informações: 4488-8524

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Sobre o autor

27 anos, Francorrochense, Atriz, Produtora Cultural, Co-fundadora da Associação Cultural CONPOEMA, Feminista e Co-fundadora do coletivo Baciada das Mulheres do Juquery, vegetariana, divide a casa com seu cachorro Romeo e seu gato Fellini.

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