As dores e as glórias dos francorrochenses

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_mg_3162Já passamos da metade das apresentações da temporada do espetáculo “Juquery: memórias de quase vidas”, do Teatro Girandolá, que está acontecendo na Rotunda, do Complexo Hospitalar do Juqueri, só restando mais duas apresentações para serem realizadas. A apresentação do último domingo, dia 27, contou mais uma vez com a casa lotada, o que demonstra o grande interesse da população em aprofundar seu conhecimento na história da formação dessa região, que está intrinsecamente ligada à história do hospital e à história da loucura. O Complexo Hospitalar do Juqueri já contou com cerca de 14 mil pacientes, e hoje com cerca de 120, tenta escrever uma nova história.
O espetáculo foi construído a partir da convivência com os paciente remanescentes, com conversas com funcionários e moradores da cidade, além de uma pesquisa nos prontuários, leituras de livros como “Cidadelas da Ordem” e “Juqueri, o espelho do mundo”, de Maria Clementina, “Athur Bispo do Rosário: O Senhor do Labirinto”, de Luciana Hidalgo, “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, e algumas obras literárias como “O Alienista”, de Machado de Assis, e os contos “Soroco, sua mãe, sua filha” e “A terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa, e “Só vim telefonar”, de Gabriel Garcia Marquez, além de filmes e outros materiais artísticos, textos e teses sobre o tema, o que colocou os artistas em questionamento sobre o que é loucura e o que é sanidade. Este questionamento também transpassa a obra, e chega ao bate-papo com a plateia.
O espetáculo é mesclado com cenas que acontecem dentro do hospital e cenas do cotidiano, que o grupo optou por chamar atenção, como a relação com o transporte público, a ditadura da beleza para as mulheres, e a instituição policial.
Neste último bate-papo passamos por diversos assuntos e debates suscitados pela obra, e quando percebemos que muita coisa do que hoje é considerado normal já foi considerado doença mental, percebemos que que a loucura foi encarada de maneira diferente no decorrer da história, e que ela também pode ser construída pela sociedade. Pense em quantas coisas são aceitas por nossa sociedade, e quantas delas não nos parecem grandes loucuras sociais? Ou mesmo o inverso.
O bate-papo sempre nos rende importantes reflexões geradas pela contribuição de todos, e que também nos alimenta quanto artistas e interferem em nossa obra.

Nesta temporada também estamos muito felizes pela quantidade de trabalhadores da saúde que tem ido assistir a peça, em especial, os psicólogos que tem feito uma grande divulgação dentro de suas redes, e  fortalecido nosso trabalho. Vermos quantas pessoas tem vindo de longe, da zona sul, da leste, do ABC, também tem nos deixado muito felizes, tanto por quererem discutir um assunto ser de extrema importância, como também por vermos essas pessoas virem conhecer Franco da Rocha, já que até então, o que sempre aconteceu foi de nós irmos para fora conhecer obras artísticas, estudar, e buscar fontes de informação, e vermos o movimento inverso acontecer, é muito gratificante, é importante pontuarmos que por aqui também há obras importantes para serem conhecidas, há quem esteja construindo um pensamento coletivo, há quem esteja produzindo obras de qualidade, que há também o que se aprender e levar pra fora. Todos nós temos o que compartilhar!
É sempre importante pra nós da CONPOEMA e do Teatro Girandolá, valorizarmos o que temos de bom por aqui, valorizar nossa história, nosso povo e nosso lugar.
Se você ainda não conhece o espetáculo, assista a temporada que vai até o dia 11 de dezembro, sempre aos domingos, às 17h, com entrada gratuita. O espetáculo é indicado para maiores de 16 anos e os ingressos serão distribuídos no próprio local da apresentação, com 1 hora de antecedência. Enquanto espera, o público pode conferir a exposição “O que seria daqui se não fosse o Juquery”, que compartilha através de fotos e textos um pouco do processo de criação do espetáculo. São apenas 40 lugares, garanta o seu.
O Complexo Hospitalar do Juqueri fica na Av. dos Coqueiros, 300, Centro, Franco da Rocha/SP e as apresentações acontecem no prédio da antiga Rotunda.
Essa temporada é uma realização da Associação Cultural CONPOEMA, através de seu núcleo artístico Teatro Girandolá e integra a programação da Franco Mostra Teatro 2016, promovida pela Secretaria Adjunta de Cultura de Franco da Rocha, e é desenvolvida através de recursos próprios da Associação.
Mais informações: 4488-8524

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Sobre o autor

27 anos, Francorrochense, Atriz, Produtora Cultural, Co-fundadora da Associação Cultural CONPOEMA, Feminista e Co-fundadora do coletivo Baciada das Mulheres do Juquery, vegetariana, divide a casa com seu cachorro Romeo e seu gato Fellini.

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